quarta-feira, 24 de abril de 2019

Resenha_As produções audiovisuais como instrumento de ensino


Referências:

PIRES, Eloiza Gurgel. A Experiência audiovisual nos espaços educativos: possíveis interseções entre educação e comunicação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.36, n.1, p. 281-295, jan./abr. 2010.

As produções audiovisuais como instrumento de ensino

O artigo “A experiência audiovisual nos espaços educativos: possíveis intersecções entre educação e comunicação” publicado na revista Educação e Pesquisa da Faculdade de Educação da USP, no ano de 2010 (ISSN 1678-4634) é de autoria da pesquisadora Eloiza Gurgel Pires, que busca discutir as novas formas de produção do conhecimento relacionando-as com a arte, a cultura, as inovações e a educação. Eloiza é arte-educadora, artista plástica, e doutora em educação pela Universidade de Brasília.

Inicialmente a leitura nos remete a uma reflexão sobre a influência das tecnologias na educação e como elas mudam o processo de comunicação que é o maior instrumento educacional e de produção do conhecimento, temos novos modos de ler, ver, pensar e aprender. Através do processo de produção audiovisual a autora propõe analisarmos as mudanças que ocorrem em relação ás disciplinas clássicas. É por intermédio da cultura midiática que podemos atingir o sensível e o inteligível, nela não se separam os saberes.

O sujeito se forma e forma o mundo em que está inserido através da linguagem, da comunicação, são as interações deste sujeito com os outros e com os objetos que geram o conhecimento: a cultura. As imagens falantes e em movimento, possibilitadas pelos meios híbridos, juntam de forma consistente o pensamento e o imagético, misturando as linguagens num mesmo espaço. As novas formas de linguagens trazidas pelo surgimento do vídeo moldam um novo objeto cheio de possibilidades. O vídeo difere-se da TV em sua intencionalidade sua função cultural amplia os horizontes e explora novos caminhos.

Ao abordar sobre linguagem videográfica a autora esclarece que ela é diferente da linguagem verbal, não há regras esquemáticas que digam o que pode ou não fazer, o vídeo opera com diversos códigos: cinema, teatro, literatura, rádio e computação gráfica. Porém para ser instrumento de comunicação e transitar entre produtores e consumidores, por tratar-se de algo capaz de transmitir conhecimento é natural que obedeça um sistema significante que o liga com a sociedade.

No início dos anos 1980 com a popularização das câmeras de vídeo, tendo seu preço acessível na intuição da indústria em transformá-las em eletrodomésticos, e com a influência dos estudos de Paulo Freire que voltava seu olhar aos mais oprimidos, as ONGs iniciaram produções em vídeo que reproduziam estas realidades e resignificavam a exploração videográfica com imagens ao vivo. Logo a ideia dos vídeos populares invadiu as TVs, e essa comunicação surge em outros lugares, como na escola. Assim a linguagem audiovisual marcava inicialmente seu espaço na cultura e na transformação dela.

 Nos dias atuais, a expansão das produções audiovisuais invade a internet e tomam dimensões indissociáveis da escola, cada vez mais os alunos produzem e consomem vídeos, tornando essa prática de necessidade negociável com professores que evidenciam o trabalho coletivo e trazem o reconhecimento em valores culturais destas produções.

A educação midiática abrange três perspectivas: educar pela, com e para a mídia. Ao falarmos em educar pela mídia, a forma mais conhecida são os ensinos em EAD, os quais misturam vídeos, áudios, teleaulas e educação online transformando a educação principalmente na organização do estudante no tempo e no espaço. Na educação com mídia, embora necessite de maior exploração das potencialidades dos meios, esta perspectiva é usada através de suas possibilidades em produções elaboradas para o tratamento de assuntos específicos. Já na modalidade de educar para a mídia é a educação que se apropria do uso das tecnologias de forma a explorar suas potencialidades, voltada às produções.

Não podemos confundir a essência destas perspectivas de ensino, percebendo que educar para a mídia envolve um processo de reconhecer os diversos instrumentos midiáticos (livro, jornal, revista, CDs, jogos digitais, internet, televisão, rádio, fotografia, cinema, vídeo – meios de comunicação modernos) e como deve ser a leitura e escrita dos mesmos, desenvolvendo a criticidade por meio de participação ativa na produção e no consumo destas linguagens.

Este aluno, interlocutor é também visto como sujeito histórico, social e cultural, seus estudos em relação ás produções, passa da elaboração dos roteiros, de definir cenários, personagens, temas, vai além do uso da câmera e das ferramentas de edição, ele precisa transmitir emoções. Esta mistura de conceitos é constantemente mediada pelo professor e pelo diálogo na coletividade da turma.

Para a compreensão do sujeito em relação ao uso das câmeras, a autora caminha em uma reflexão embasada em vários autores, buscando identificar desde a apropriação das imagens voltando para o que o sujeito sabe de si confrontando com o que passa a estranhar ao ver sua própria imagem frente às câmeras, sendo capaz de mudar sua visão sobre si mesmo. A escola contribui com o papel de interrogar esses novos sujeitos possibilitando diálogo entre a cultura e as gerações.

A escola tem um papel importantíssimo de acompanhar as mudanças culturais da contemporaneidade a fim de que o aluno sinta-se parte do espaço escolar e que através do uso das mídias perceba e construa seu papel de cidadão agente destas mudanças. O jovem acredita nas descobertas e nas suas atuações na sociedade, cabe aos professores o papel de envolvê-los à valores e normas da cultura oficial.

Em suas considerações, o texto evidencia a importância dos meios de comunicação para a formação da sociedade cultural, mas deixa claro que é a cultura da civilização que norteia os valores e a importância dos meios tecnológicos. Na escola a imagem vai além de uma ilustração das palavras, ela está associada á construção do conhecimento, o audiovisual estabelece um diálogo entre imagem e discurso e nos permite a apropriação de novas mídias. Os professores devem acompanhar as mudanças e aproveitarem-se desta cultura midiática para fomentar as novas leituras do mundo.

Com a leitura deste artigo, a ideia de incentivar os alunos a participarem de construções audiovisuais foi reforçada, quando o aluno passa a ser coautor do seu conhecimento, a escola torna-se um espaço de expansão cultural. O acesso ás mídias digitais cresce a cada dia, as tecnologias devem ser vistas como fundamentais aliadas da escola.

Propor a construção de projetos audiovisuais na escola é uma forma viável de inserir as mídias presentes no cotidiano, de forma a contribuir com o aprendizado dos alunos. Um vídeo produzido pelos alunos que retrata a realidade cultural de sua comunidade com personagens conhecidos, que exiba contextos reais a serem explorados, contribui com os processos cognitivos destes jovens que são rodeados de informações de diferentes linguagens fora da escola.

Nós professores precisamos compreender que nossos alunos aprendem de diferentes maneiras, a influência das tecnologias digitais, presente na vida cotidiana deles, os torna capazes de ver o mundo de forma diferente, e são estas diferenças, realçadas em produções autorais, que evidenciam a pluralidade cultural e enriquecem as possibilidades exploráveis destes materiais. A escola tem o papel de incentivar o aluno ao reconhecimento do seu espaço no mundo e em relação à visão do seu próprio eu, permitir manifestações de criatividade contribui para a formação deste cidadão capaz de inferir saberes das mídias que o cercam.

 

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