Referências:
PIRES, Eloiza Gurgel. A Experiência audiovisual nos espaços educativos: possíveis interseções
entre educação e comunicação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.36,
n.1, p. 281-295, jan./abr. 2010.
As produções audiovisuais como
instrumento de ensino
O artigo “A
experiência audiovisual nos espaços educativos: possíveis intersecções entre
educação e comunicação” publicado na revista Educação e Pesquisa da
Faculdade de Educação da USP, no ano de 2010 (ISSN 1678-4634) é de autoria da
pesquisadora Eloiza Gurgel Pires, que busca discutir as novas formas de
produção do conhecimento relacionando-as com a arte, a cultura, as inovações e
a educação. Eloiza é arte-educadora, artista plástica, e doutora em educação
pela Universidade de Brasília.
Inicialmente a leitura nos remete a uma reflexão sobre
a influência das tecnologias na educação e como elas mudam o processo de
comunicação que é o maior instrumento educacional e de produção do
conhecimento, temos novos modos de ler, ver, pensar e aprender. Através do
processo de produção audiovisual a autora propõe analisarmos as mudanças que
ocorrem em relação ás disciplinas clássicas. É por intermédio da cultura
midiática que podemos atingir o sensível e o inteligível, nela não se separam
os saberes.
O sujeito se forma e forma o mundo em que está inserido
através da linguagem, da comunicação, são as interações deste sujeito com os
outros e com os objetos que geram o conhecimento: a cultura. As imagens
falantes e em movimento, possibilitadas pelos meios híbridos, juntam de forma
consistente o pensamento e o imagético, misturando as linguagens num mesmo
espaço. As novas formas de linguagens trazidas pelo surgimento do vídeo moldam
um novo objeto cheio de possibilidades. O vídeo difere-se da TV em sua
intencionalidade sua função cultural amplia os horizontes e explora novos
caminhos.
Ao abordar sobre linguagem videográfica a autora
esclarece que ela é diferente da linguagem verbal, não há regras esquemáticas
que digam o que pode ou não fazer, o vídeo opera com diversos códigos: cinema,
teatro, literatura, rádio e computação gráfica. Porém para ser instrumento de
comunicação e transitar entre produtores e consumidores, por tratar-se de algo
capaz de transmitir conhecimento é natural que obedeça um sistema significante
que o liga com a sociedade.
No início dos anos 1980 com a popularização das
câmeras de vídeo, tendo seu preço acessível na intuição da indústria em
transformá-las em eletrodomésticos, e com a influência dos estudos de Paulo
Freire que voltava seu olhar aos mais oprimidos, as ONGs iniciaram produções em
vídeo que reproduziam estas realidades e resignificavam a exploração videográfica
com imagens ao vivo. Logo a ideia dos vídeos populares invadiu as TVs, e essa
comunicação surge em outros lugares, como na escola. Assim a linguagem
audiovisual marcava inicialmente seu espaço na cultura e na transformação dela.
Nos dias
atuais, a expansão das produções audiovisuais invade a internet e tomam
dimensões indissociáveis da escola, cada vez mais os alunos produzem e consomem
vídeos, tornando essa prática de necessidade negociável com professores que
evidenciam o trabalho coletivo e trazem o reconhecimento em valores culturais destas
produções.
A educação midiática abrange três perspectivas:
educar pela, com e para a mídia. Ao falarmos em educar pela mídia, a forma mais
conhecida são os ensinos em EAD, os quais misturam vídeos, áudios, teleaulas e
educação online transformando a educação principalmente na organização do
estudante no tempo e no espaço. Na educação com mídia, embora necessite de
maior exploração das potencialidades dos meios, esta perspectiva é usada
através de suas possibilidades em produções elaboradas para o tratamento de
assuntos específicos. Já na modalidade de educar para a mídia é a educação que
se apropria do uso das tecnologias de forma a explorar suas potencialidades,
voltada às produções.
Não podemos confundir a essência destas perspectivas
de ensino, percebendo que educar para a mídia envolve um processo de reconhecer
os diversos instrumentos midiáticos (livro, jornal, revista, CDs, jogos
digitais, internet, televisão, rádio, fotografia, cinema, vídeo – meios de
comunicação modernos) e como deve ser a leitura e escrita dos mesmos,
desenvolvendo a criticidade por meio de participação ativa na produção e no
consumo destas linguagens.
Este aluno, interlocutor é também visto como sujeito
histórico, social e cultural, seus estudos em relação ás produções, passa da
elaboração dos roteiros, de definir cenários, personagens, temas, vai além do
uso da câmera e das ferramentas de edição, ele precisa transmitir emoções. Esta
mistura de conceitos é constantemente mediada pelo professor e pelo diálogo na
coletividade da turma.
Para a compreensão do sujeito em relação ao uso das
câmeras, a autora caminha em uma reflexão embasada em vários autores, buscando
identificar desde a apropriação das imagens voltando para o que o sujeito sabe
de si confrontando com o que passa a estranhar ao ver sua própria imagem frente
às câmeras, sendo capaz de mudar sua visão sobre si mesmo. A escola contribui
com o papel de interrogar esses novos sujeitos possibilitando diálogo entre a
cultura e as gerações.
A escola tem um papel importantíssimo de acompanhar
as mudanças culturais da contemporaneidade a fim de que o aluno sinta-se parte
do espaço escolar e que através do uso das mídias perceba e construa seu papel
de cidadão agente destas mudanças. O jovem acredita nas descobertas e nas suas
atuações na sociedade, cabe aos professores o papel de envolvê-los à valores e
normas da cultura oficial.
Em suas considerações, o texto evidencia a
importância dos meios de comunicação para a formação da sociedade cultural, mas
deixa claro que é a cultura da civilização que norteia os valores e a
importância dos meios tecnológicos. Na escola a imagem vai além de uma
ilustração das palavras, ela está associada á construção do conhecimento, o
audiovisual estabelece um diálogo entre imagem e discurso e nos permite a
apropriação de novas mídias. Os professores devem acompanhar as mudanças e
aproveitarem-se desta cultura midiática para fomentar as novas leituras do
mundo.
Com a leitura deste artigo, a ideia de incentivar os
alunos a participarem de construções audiovisuais foi reforçada, quando o aluno
passa a ser coautor do seu conhecimento, a escola torna-se um espaço de
expansão cultural. O acesso ás mídias digitais cresce a cada dia, as
tecnologias devem ser vistas como fundamentais aliadas da escola.
Propor a construção de projetos audiovisuais na
escola é uma forma viável de inserir as mídias presentes no cotidiano, de forma
a contribuir com o aprendizado dos alunos. Um vídeo produzido pelos alunos que
retrata a realidade cultural de sua comunidade com personagens conhecidos, que
exiba contextos reais a serem explorados, contribui com os processos cognitivos
destes jovens que são rodeados de informações de diferentes linguagens fora da
escola.
Nós professores precisamos compreender que nossos
alunos aprendem de diferentes maneiras, a influência das tecnologias digitais,
presente na vida cotidiana deles, os torna capazes de ver o mundo de forma
diferente, e são estas diferenças, realçadas em produções autorais, que
evidenciam a pluralidade cultural e enriquecem as possibilidades exploráveis
destes materiais. A escola tem o papel de incentivar o aluno ao reconhecimento
do seu espaço no mundo e em relação à visão do seu próprio eu, permitir
manifestações de criatividade contribui para a formação deste cidadão capaz de
inferir saberes das mídias que o cercam.